Acabo de chegar em Novosibirsk. Temos que dormir rápido, pois vamos sair cedinho. Temos passeio e depois pegamos o trem outra vez. Agora vai ser uma maratona só para seguir adiante. Abaixo o texto que escrevi no trem.
Descobri que ontem eu havia ajustado o relógio errado. Voltei duas horas, mas era uma só. Com isso podíamos ter perdido o trem, mas conseguimos embarcar. Aproveito para escrever.
Existem muitos aprendizados, em qualquer viagem, ou melhor, em qualquer vivência, quando resolvemos criar tempo e olhos de observar.
Aprendi que usar gorro é muito importante, o tempo todo fora de casa, para não resfriar. Preciso resistir um pouco mais ao meu calor desesperado e parar de ficar arrancando a roupa e o chapéu. Mais ainda, aprendi que temos que nos agasalhar enquanto estamos no quente, não se pode deixar para vestir na rua.
Aprendi que o gorro de pele é fundamental e aquece mesmo, principalmente as orelhas, mais ainda, aqueles pelinhos de pele que colocam em volta do capuz, não é enfeite, protege, e muito, contra o vento.
Aprendi que os vidros dos trens são sempre sujos, com isso a gente aprende a não se ocupar em tirar fotos com isso se guarda silêncio e paz.
Aprendi que viajar nas cabinas com quatro pessoas, não precisa ser sufocante. As pessoas vivem assim e sabem conviver com isso. Não precisamos guardar distância, nem perder a liberdade.
Aprendi como colocar as malas na cabina para que nos atrapalhem menos. Os bancos levantam e podemos colocar malas lá em baixo. Além de tudo há um espaço em cima da porta.
Aprendi a fazer compra de alimentos antes de entrar no trem. Com isso aprendi a comer macarrãozinho temperado, sementes de girassol, tomar chá, etc.
Aprendi que os russos trocam de roupa no tem e trazem chinelinhos para ficar à vontade.
Aprendi que a lente da máquina também congela, se a gente fica muito tempo fora do carro.
Aprendi que os nossos óculos e a lente da máquina produzem gelo sempre que entramos em um lugar com calefação. Para descongelar, é preciso esperar pelo menos dez minutos.
Aprendi que o tempo nublado é mais quente e que o céu azul faz mais frio.
Aprendi ficar sentado por horas em um banco olhando pela janela, bebendo imagens sem ficar filosofando.
Aprendi que é preferível jogar areia na neve do que sal, pois é melhor um pouco de lama do que que fazer mal para a natureza (ah! Se os americanos descobrissem isso).
Descobri que strogonoff não é tão conhecido por aqui, e quando encontramos é feito com funghi. Não acompanha arroz, nem batata frita. Ah! Não tem catchup. É uma delícia.
Comemos Vareniks, Porsch... e bebemos Vodka. Prestem atenção se pronuncia Vôdk. Não falem com o “O” aberto nem com o “a forte no final, pois assim não vão te entender. Aprendi também que sempre que pedir algo para tentar a sorte, vou receber peixe cru. Não importa é uma delícia.
As descobertas são instigantes. Só tivemos guias mulheres, acho que só elas se permitem aprender línguas. Hoje os jovens começam a aprender inglês, mas a maioria das pessoas não consegue falar nem entender o mínimo. Falam desesperadamente em russo e se demonstramos que não entendemos, dai eles falam muito mais, parece que estão querendo explicar o que já não entendemos.
Agora no final do dia, volto a escrever um pouco. Depois de ouvir Baden fazendo um tributo a Vinícius. Resolvi ler poemas do velho poeta, comecei a chorar como um idiota. Eu não estou no exílio e estou curtindo muito, mas sinto que a sensibilidade fica à flor da pele.
Tenho me emocionado com conversas pelo facebook, com mensagens que recebo e com poemas que releio.
Sair de nosso conforto, abrir mão de nossa previsibilidade, enfrentar esses “não sei os quês que dão por dentro” deixam nossa bobeira mais exposta. Isso é bom.
Acho que vale a pena um pedacinho, para os jovens que nunca leram Vinicius:
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria,
eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo o adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te, no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo...
depois de voltar de viagem, me atualizei com o blog, me emocionei, viajei junto e descobri.....sua vocação será no futuro de....guia de turismo! Incrível vc transferir visão, sentimento, emoção!!! Delicia! Agora acompanharei! Por favor não congele!!! Nem vc nem Paulo!!! bjs
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