quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chegamos a Novosibirsk


Acabo de chegar em Novosibirsk. Temos que dormir rápido, pois vamos sair cedinho. Temos passeio e depois pegamos o trem outra vez. Agora vai ser uma maratona só para seguir adiante. Abaixo o texto que escrevi no trem.

Descobri que ontem eu havia ajustado o relógio errado. Voltei duas horas, mas era uma só. Com isso podíamos ter perdido o trem, mas conseguimos embarcar. Aproveito para escrever.

Existem muitos aprendizados, em qualquer viagem, ou melhor, em qualquer vivência, quando resolvemos criar tempo e olhos de observar.

Aprendi que usar gorro é muito importante, o tempo todo fora de casa, para não resfriar. Preciso resistir um pouco mais ao meu calor desesperado e parar de ficar arrancando a roupa e o chapéu. Mais ainda, aprendi que temos que nos agasalhar enquanto estamos no quente, não se pode deixar para vestir na rua.

Aprendi que o gorro de pele é fundamental e aquece mesmo, principalmente as orelhas, mais ainda, aqueles pelinhos de pele que colocam em volta do capuz, não é enfeite, protege, e muito, contra o vento.

Aprendi que os vidros dos trens são sempre sujos, com isso a gente aprende a não se ocupar em tirar fotos com isso se guarda silêncio e paz.

Aprendi que viajar nas cabinas com quatro pessoas, não precisa ser sufocante. As pessoas vivem assim e sabem conviver com isso. Não precisamos guardar distância, nem perder a liberdade.

Aprendi como colocar as malas na cabina para que nos atrapalhem menos. Os bancos levantam e podemos colocar malas lá em baixo. Além de tudo há um espaço em cima da porta.

Aprendi a fazer compra de alimentos antes de entrar no trem. Com isso aprendi a comer macarrãozinho temperado, sementes de girassol, tomar chá, etc.

Aprendi que os russos trocam de roupa no tem e trazem chinelinhos para ficar à vontade.

Aprendi que a lente da máquina também congela, se a gente fica muito tempo fora do carro.

Aprendi que os nossos óculos e a lente da máquina produzem gelo sempre que entramos em um lugar com calefação. Para descongelar, é preciso esperar pelo menos dez minutos.

Aprendi que o tempo nublado é mais quente e que o céu azul faz mais frio.

Aprendi ficar sentado por horas em um banco olhando pela janela, bebendo imagens sem ficar filosofando.

Aprendi que é preferível jogar areia na neve do que sal, pois é melhor um pouco de lama do que que fazer mal para a natureza (ah! Se os americanos descobrissem isso).

Descobri que strogonoff não é tão conhecido por aqui, e quando encontramos é feito com funghi. Não acompanha arroz, nem batata frita. Ah! Não tem catchup. É uma delícia.

Comemos Vareniks, Porsch... e bebemos Vodka. Prestem atenção se pronuncia Vôdk. Não falem com o “O” aberto nem com o “a forte no final, pois assim não vão te entender. Aprendi também que sempre que pedir algo para tentar a sorte, vou receber peixe cru. Não importa é uma delícia.

Descobri que a salada russa é Russa mesmo, mas não dmitem que se coloque atum. Mais do que isso acho que a maionese ou algo parecido, é russa, pois colocam uma colher desse creme em tudo, até nas sopas.

As descobertas são instigantes. Só tivemos guias mulheres, acho que só elas se permitem aprender línguas. Hoje os jovens começam a aprender inglês, mas a maioria das pessoas não consegue falar nem entender o mínimo. Falam desesperadamente em russo e se demonstramos que não entendemos, dai eles falam muito mais, parece que estão querendo explicar o que já não entendemos.

Agora no final do dia, volto a escrever um pouco. Depois de ouvir Baden fazendo um tributo a Vinícius. Resolvi ler poemas do velho poeta, comecei a chorar como um idiota. Eu não estou no exílio e estou curtindo muito, mas sinto que a sensibilidade fica à flor da pele.

Tenho me emocionado com conversas pelo facebook, com mensagens que recebo e com poemas que releio.

Sair de nosso conforto, abrir mão de nossa previsibilidade, enfrentar esses “não sei os quês que dão por dentro” deixam nossa bobeira mais exposta. Isso é bom.

Acho que vale a pena um pedacinho, para os jovens que nunca leram Vinicius:

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria,

eu semente que nasci do vento

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço

Em contato com a dor do tempo, eu elemento

De ligação entre a ação e o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo o adeus

Eu, o sem Deus!

Tenho-te, no entanto em mim como um gemido

De flor; tenho-te como um amor morrido

A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito

Nesta sala estrangeira com lareira

E sem pé-direito.

Quero rever-te, pátria minha, e para

Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo...

Um comentário:

  1. depois de voltar de viagem, me atualizei com o blog, me emocionei, viajei junto e descobri.....sua vocação será no futuro de....guia de turismo! Incrível vc transferir visão, sentimento, emoção!!! Delicia! Agora acompanharei! Por favor não congele!!! Nem vc nem Paulo!!! bjs

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