sábado, 7 de janeiro de 2012

Reflexões de viajante

Depois de muito frio, muitos sabores e sensações, há um momento que sentimos, como diria Guimarães Rosa, "um não sei quê que dá por dentro", onde nos sentimos sem chão e sem lugar. A sensação de que já vimos tudo e que precisamos voltar para casa, mas ao mesmo tempo sabemos que nossa casa não é o lugar para se sentir seguro. É um sentir tão pequeno ao mesmo tempo que se sentir tão humano...
O almoço, como sempre emocionante. Um cardápio com letras que não conhecemos e nem uma pessoa que possa nos ajudar. Quando muito entendem "Beer e Vodka", fora isso não se sabemos nem contar, nem pedir conta quem diria pedir exclarecimento sobre o cardápio. Pedimos um peixe local: Omul, peixe que só existe aqui no lago Baycal, pois bem, logo se vê dois brasileiro comendo um Ceviche russo-asiático-siberiano, pois é, comemos peixe cru, com limão, cebola e pimenta, tudo isso com um frio e um medo danado de passar mal. Estava gostoso, mas é bom tomar vodka para compensar.
Conversamos bastante e o sentimento é comum. A Mongólia foi algo muito especial, de fato é uma cultura e uma história que nos instiga e emociona, são completamente sem influência ocidental, sem nenhuma igreja mas com uma noção de ambiente e natureza que nem podemos compreeender.
Creio que vamos precisar de um tempo para falar da Mongólia. São detalhes que não é possível descrever, por exemplo: amam seus cavalos, mas depois de velhos, podem ser sacrificados e podem virar alimento, vestimenta e corda. Não podem plantar, para não mexer na terra, o xamanismo é natural, a hospitalidade é impressionante e os ícones são muito respeitados e amados. Tanto os Mongóis quanto os Buriates não sentem nenhum atraso ou dívida com o mundo moderno, pelo contrário, acreditam que graás a eles, não se transformaram em uma imitação de Europa.
A sensação é tão forte que até nos esquecemos de Paris, Roma e Pequim. Sabemos que foi tudo maravilho e que a maioria das pessoas estaria feliz com uma das três cidades. O problema é que tivemos o atrevimento de por os pés e o coração em uma terra que não sabíamos nada, pelo contrário, o máximo de referência era achar que os portadores de down eram chamados de mongolóides por serem parecidos fisicamente com eles.
A semelhança não é no rosto, é na pureza da alma, no sorriso e na crença na sua felicidade.
Como podem perceber, preciso de um tempo para me equilibrar.
Ainda bem que estamos voltando bem devagar. Vamos demorar para chegar no mundo que conhecemos...

Um comentário:

  1. Ficou muito lindo o texto! Senti que veio direto de coração para os nossos olhos de leitores. Queria ter ido.

    ResponderExcluir