Agora, sentado no trem em direção a Berlin, tenho um pouco de tempo para descrever o que foi o dia, ou melhor a manhã de hoje. Levantamos como quem não tem nada para fazer, resolvemos ler o folheto do mapa da cidade e descobrimos que podíamos ir a um museu, perto do hotel, antes de seguir viagem.
Uma das sensações mais estranhas que se pode ter. Pegar um bonde em direção a um museu que se viu num catálogo e nenhum guia de turismo falou sobre ele. A sensação é que iríamos a um lugar mal cuidado e esquecido.
Chegamos cedo, ficamos dando voltas em um quarteirão cheio de poças, lama e muita neve que caiu durante a noite. Entrar em um museu em um bairro mal encarado, cheio de obras e pior, junto com um monte de soldados, todos jovens e fardados. Lembramos que a Polônia tem enviado soldados para a Iraque e esses jovens bem poderiam estar amanhã ou depois, metidos em situações como as que o museu se propõe.
Entrada gratuita. Passa-se por portões para deixar o casaco e depois de uma porta enorme você se encontra pisando um chão com paralelepípedos quadrados, iguais aos do centro da cidade. Vê-se diante de uma grande parede cheia de cartazes mal colados, pedaços e ruinas e um clima misterioso, aterrorizante e aconchegante, como se estivesse andando pelas ruas de Varsóvia destruída.
O Levante de Varsóvia, que durou 63 dias e levou à destruição da cidade. É uma exposição interativa que cria um clima, como se a qualquer momento, um bombardeio fosse devastar tudo à sua volta. Observa-se apenas os escombros de uma cidade arrasada enquanto ao fundo existem murais da cidade inteira, parece que procuramos um lugar para se esconder.
Assim é o Museu do Levante, você olha por buraquinhos na parede, onde passam filmes de horror, reais da época. Existem totens, como se fossem latas de lixo, que você olha dentro e estão passando imagens da época. Existem muitas gavetas que você abre e lá dentro estão as biografias das pessoas que morreram. Pela parede existem calendários, que você pode extrair folhinhas com as notícias de cada dia.
Viver e lutar, na Varsóvia de 44, com guetos cercados, trens saindo para a ilusão de uma fuga, mas sendo mandados para os campos de trabalho forçado ou extermínio em massa.
No hall central do museu, um avião nazista original sobrevoa uma Varsóvia fictícia em ruínas. Os sons dos bombardeios atrapalham o silêncio a que todos se impõem. As paredes pintadas de um cinza escuro criam um ambiente sombrio, chega-se a um grande salão, onde depois de atravessar ruinas e muros encontra capsulas de sobrevivência que caíram do céu. Um avião está no ar, ao fundo uma cidade iluminada em vermelho, como se estivesse em chamas. Luzes de holofotes iluminam alguns rostos da época (em cartazes preto e branco) mas os spots de luz, parecem te procurar.
O som de um coração batendo, ou de um relógio que marca o tempo. Ao fundo, vê-se uma gráfica, com um tipografo imprimindo folhetos.
Ainda ontem ouvimos que dos poucos que sobreviviam aos maus-tratos resolveram morrer com honra em vez de serem simplesmente esmagados pelos nazistas em Treblinka.
A população judaica de Varsóvia já havia sido dizimada. A destruição, com a tomada dos bairros judeus e a criação do gueto, atingia a fase final.
A Polônia perdeu 18 mil soldados - outros 25 mil ficaram feridos - e mais de 250 mil civis, a maioria morta em execuções em massa. Do lado alemão, 17 mil soldados morreram e 9 mil ficaram feridos.
Existem túneis escuros, por onde se caminha como os poloneses que comandaram o Levante de Varsóvia ainda viram um fio de esperança no fim dos túneis e esgotos que percorriam os subsolos da capital. Esses túneis receberam grande quantidade de gasolina e fogo.
Quando tudo terminou, cerca de 85% de Varsóvia havia sido destruída - mesmo depois de vencer a batalha, as tropas alemãs incendiaram cada bairro da cidade.
Essa é a história que o Museu do Levante conta de forma inovadora. Em cada parede, com vídeos, fotos do conflito e testemunhos dos sobreviventes, há um calendário com o dia em que os fatos ocorreram.
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