segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Etiópia - Bahir Dar

Pouco sono, pois a necessidade de levantar muito cedo sempre causa ansiedade. Acho que hoje eu preciso escrever. Registrar os dados.
Chegamos tão cedo ao aeroporto de Addis Abeba que ele ainda estava fechado. Em compensação às 9 horas eu já estava em um barco no lago Tana. É um lago enorme, tem 84 km de comprimento e 66 km de largura, e está localizado nas terras altas do noroeste do país. A profundidade chega a 18 metros, e cobre cerca de 3.500 km², a 1840 metros de altitude.  Recebe água de 5 rios e sua única vazante é o que inicia o Rio Nilo.
Descobri que a Etiópia é o segundo maior pais entre os 54 que formam a África. Sua grande riqueza é a água. Historicamente já lutou com todos os vizinhos, pois todos dependem das nascentes daqui.
Agora eles acreditam que vão para a frente. Depois que a Al-kaeda desviou seu foco de atentados para o Kenia, a Presidente Dilma doou um dinheiro, 4 usineiros brasileiros estão construindo usinas de álcool e u uma ferrovia, uma empresa brasileira está construindo uma hidroelétrica.  Empresas americanas e chinesas estão explorando petróleo e os EUA tem 40.000 soldados no pais.........!!!!!! ?????
Voltando ao Lago Tana. Depois de andar do barco por quase uma hora, cheguei a uma ilha (entre mais de 30) com 8.000 habitantes. Tem sete monastérios com mais de 800 anos. Visitei o maior deles, tem uma arca interna (um caixote de pedra com cerca de 15 passos de cada lado) revestido de telas com pinturas sagradas. Lá dentro são guardadas as riquezas, mas só um monge pode entrar – tem que ser sem família, sem esposa, etc...




Em outra ilha, vi um museu (uma sala) onde está uma barraca do imperador do Sec. XVI e objetos da época. É estranho imaginar que descendentes de Salomão e Rainha de Sabá tenham vivido nessas condições.
Mais estranho é descobrir que nas duas grandes guerras os italianos invadiram a Etiópia. Para esconder essas riquezas, levaram tudo para as ilhas. Encheram 17 barcos com ouro, pedras e peças preciosas e os afundaram perto das ilhas. Tudo está sendo resgatado.

À Tarde encarei uma estrada de terra terrível, para chegar nas cataratas onde nasce o Rio Nilo. Eu vi. Vi tudo que se pode imaginar. Vi muita pobreza. Os olhos enchiam de lágrimas, eu me engasgava com a poeira. Trinta e tantos km de pessoas caminhando pela margem da estrada...
Depois que fui capaz de conversar, entendi que essa região era onde haviam os acampamentos de ajuda humanitária. Para cá vinham os fugitivos de guerra e da seca. Olhando por essa ótica, as coisas estão melhores. Não se vê mais raquitismos e pedintes. As condições ainda são muito precárias, mas já tem casa, de pau e barro, convivem e conversam. E chupam cana. Fazem e vendem artesanatos para os cerca de 15 turistas que andam por aqui.
Dai outro dilema. As cataratas estão quase secas, pois a água foi desviada para as usinas de álcool. Agora eles tem emprego e cana para chupar. Tem uma disposição para caminhadas, já pastoreiam, plantam e tecem. Ainda transportam em carroças, mas as crianças já vão à escola (mas ainda trabalham muito)
Sei lá. Nem sei o que contar, nem as fotos expressam o que vi e vivi. Fiquei com muita vergonha de tirar fotos. É uma realidade tão pirante que a gente não sabe o que fazer.

Mais reflexões
Está sendo muito interessante a leitura do livro durante a viagem. As reflexões do Bonder sobre a necessidade de tirar os sapatos (se despir de preconceitos e ter contato com a realidade, sem julgamento exercitar o respeito) traz citações muito fortes:
“A identidade gera valores e compromissos, mas pode provocar efeitos colaterais bastante sérios em nossa relação com a vida e com nossa essência” de fato, só quebrando nossa identidade podemos despir as fantasias de nós mesmos. É legal ver que “Nossos Deuses são produzidos em nossos sapatos e a única maneira de encontrarmos o Deus único é descalçando os pés. Fora dos sapatos, encontramos a distinção entro as nossas certezas e a realidade.”
Essa briga entre nossa identidade e as certezas, contrapostas com outras certezas e suas manifestações nas culturas, por vezes despertam sentimento bravos. Ontem quase briguei no avião. Eu e um casal de italianos ficamos indignados ao ver a forma como uma mãe tratava seu filho. Uma criança linda, com cerca de um ano. O menino berrou por mais de 30 minutos, um choro terrível. Nem a mãe e nem a avó falaram uma palavra com a criança, nem uma bronca, nem um carinho. Seguravam forte, davam tapinhas. Nem um olhar, nenhuma atenção. O avião todo impassível, acho que preciso evoluir muito para respeitar as diferenças no trato com crianças. Ainda bem que eu não tinha linguagem para interferir. Foi muito difícil suportar a situação.

Um comentário:

  1. Marcelo, que experiência, como sempres sua alma mudando de patamar, né?que incrivel ver coisas sobre a rainha de sabá, vou adorar ver as fotos.Que bom que está gostando do livro......Hoje é 24, tenha um Natal como deve ser, proximo dos semelhantes, de Cristo, sem necessidade de rabanadas, perus e embrulhos.......abs grande da Téia

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