Antes das cinco da
manhã eu já estava no trem. Preparado para uma longa jornada. É impressionante
como as linhas de fronteiras delimitam mais que a moeda e a língua.
Muda a civilização.
Começa com um senhor que resolve falar ao telefone no viva voz. Um som alto,
estridente. Não houve quem o convencesse a baixar o volume. Não parecia briga,
estavam ambos conversando. Mas durou três horas. Eita bateria boa!
Já que era impossível
dormir, o negocio é aproveitar o tempo de trem. Essas coisas de limpar
arquivos, fazer back up, e criar espaços.
Assim que o dia
amanhece, se percebe que a realidade já é outra. As poucas árvores que existem
estão à beira da estrada. Secas como convém no inverno. São longas extensões de
terra arada, algumas já com um verdinho bonito (não sei o que é e nem imagino o
que se planta no inverno em regiões tão frias). Tudo muito plano, já não há
mais montanhas.
As casas e as
pessoas são mais simples. As roupas, ou pouco adereços, as conversas altas, os
sorrisos são diferentes. O bilheteiro senta com as pessoas, ri com eles.
As Estações são
pequenininhas, e as paradas são mais longas.
Em Biharkeresztes,
uma pequena estação, onde quase não tem cidade, ficamos parados um bom tempo.
Até que três brutamontes, vestidos de policiais, com fala autoritária começam a
ver a documentação de todos.
Claro que eu era o
único, talvez, que não tinha documentos da região. Entreguei o passaporte.
Irritado ele tirou a capa. Queria arrancar o atestado de vacina, eu disse que
não e ele deixou. Passava o meu passaporte em uma máquina portátil e nada
acontecia. Várias tentativas, outros guardas e eu só olhando. Saíram do vagão
com meu passaporte Fizeram ligações. Um tempo depois voltaram e me devolveram.
Ufa! Acho que não sou um fugitivo internacional.
Já assusta a
quantidade lixo jogado nos campos. Muita garrafa pet. Casas e cercas bastante
prejudicadas. Observo que os guardinhas do trem ainda vestem terno azul, chapéu
vermelho e sua sacolinha de couro com equipamentos de trabalhos. Cordinhas
passam pelo ombro, pelo bolso e seguram um apito. Acho que agora vai.
Doce ilusão. Quando
o trem parte, ciente que não havia comprado nada para comer, pois não havia
nada aberto na estação. Atravessei vários vagões e fui até o vagão restaurante.
Quando chega o meu café e pão, o trem para e entra outro policial. Mais mal
humorado ainda. Me pede o passaporte. (eu havia esquecido no meu lugar) Ele
bufa como se eu fosse um rebelde (acho que estava sendo mesmo). Pago meu
lanche, levo algumas coisas e vou até o vagão para lhe entregar o passaporte
(claro que sem a capa). Ele recolhe todos os passaportes e eu imagino o tempo
que vamos ficar parados em Episcopia Bihor.
Na próxima cidade se
vê uma imensidão de vagões velhos, em decomposição, enferrujados e quebrados. O
mato toma conta dos trilhos.
Agora se viaja em
família. Falam, gritam, tentam dar ordens às crianças, arrumam e trocam malas
de lugar, fecham cortinas, penduram paletós, mexem tudo de novo. A mulher, com
sotaque cantado, cabelos com cor cinza azulado e formato estranhos como se
fosse personagem de Almodovar, se encosta e beija o marido com aparente euforia
e um grau de exibicionismo para a mãe e o filho que estão sentado em sua
frente. O marido com cabelo de corte militar, óculos e bigode fica espremido no
canto da cadeira com cara de tonto travesso enquanto ela se espalha e deita a
cabeça para traz enquanto ri. O filho tenta conversar com o pai e faz perguntas
sem parar. A avó em silencio ao lado do neto. A mãe abre a sacola, pega uma
toalha e põe a mesa, garrafas, sanduiches e outras coisinhas. Então todos falam
juntos, cruzam conversas. Será que peguei o trem para a Itália?
Uma senhora borda,
outra lê. Os homens bebem cerveja. Os jovens assistem filmes em seus
equipamentos pessoais.
Com o caminhar se vê
menos lixo. Cidades maiores, mas com pouca conservação nas casas. Cruzamento em
nível com as estradas e ruas. Sem cancelas, sem sinais.
Voltam as montanhas,
voltam as florestas. As árvores secas, mas as pedras cobertas de musgo bem
verde e alguns caules cobertos de heras.
É um outro mundo.
O chegar em Cluj
Napoca (onde já se viu o nome desse lugar) foi um susto.
As pessoas (multidão)
cercando o vagão. Era mala que voava, uma pressão absurda que a gente não
conseguia descer.
Quando consegui por
o s pés no chão, vesti o paletó, encaixei minha bagagem e desci as escadas. Um
corredor úmido, fedido e escuro. Nenhuma placa de indicação em nenhum idioma.
Fui para onde achei que devia ir, subi as escadas que achei que devia subir e
cheguei na estação.
O único terminal
para saque ATM estava fechado.
Ao sair da estação
havia uma obra enorme, lá fui eu contornar a obra. Atravessar a rua sem faixa e
sem sinal, chegar ao outro lado em uma cada de câmbio (fechada).
Suspira e ora que
melhora. Caminhando achei um caixa eletrônico e consegui tirar moeda local.
Atravesso a rua de
volta, vou até o ponto de ônibus para sacar um bilhete.
Adivinhou.... estava
desligado.
Quebrando as regras
da mina viagem eu decidi pegar um taxi.
O motorista queria
falar de futebol e saber o que um brasileiro vem fazer em Cruj Napoca. Como eu
não sabia responder, fingi que não entendi.
A primeira impressão
da cidade foi terrível, me deu saudade da Índia ou de alguns países da África.
É estranho essa forma de entrar pelo interior. Isso é legal de vir de trem. a gente demora para chegar num grande centro
É estranho essa forma de entrar pelo interior. Isso é legal de vir de trem. a gente demora para chegar num grande centro
Ao chegar no hotel,
fui bem recebido, tudo funciona bem, mas querem saber quando vou embora, porque
tem folgas, tem serviços que não funcionam, etc.
Combinei que pago
tudo amanhã, peguei um mapa da cidade que parece não oferecer muitos atrativos.
Perguntei de um
restaurante de comida típica, dos pontos de interesse e depois fiz a pergunta
fatal:
Gostaria de ver uma
cerimonia de Natal de uma Igreja Ortodoxa Romena. Silêncio e olhares... e ninguém
sabe de nada.
Tudo bem, vou comer e
amanhã eu descubro.
Algumas fotos que o nevoeiro me deixou tirar.



Marcelo, finalmente estou com computador em mãos e posso começar a curtir sua viagem. Amanhã vamos para México curtir nossos queridos e não sei se conseguirei te acompanhar, no celular é meio difícil! Aproveite tudo que puder, se cuide muito, saiba que aqui conspiramos para que tudo dê super certo! Um lindo Natal cercado de muita gente ou de ninguém, mas com alto astral e muita reflexão. Muito carinho!
ResponderExcluirFELIZ NATAL, boa viagem e muita celebração com a família.
ResponderExcluirBeijo