quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Caminho para a Transilvania

Antes das cinco da manhã eu já estava no trem. Preparado para uma longa jornada. É impressionante como as linhas de fronteiras delimitam mais que a moeda e a língua.
Muda a civilização. Começa com um senhor que resolve falar ao telefone no viva voz. Um som alto, estridente. Não houve quem o convencesse a baixar o volume. Não parecia briga, estavam ambos conversando. Mas durou três horas. Eita bateria boa!
Já que era impossível dormir, o negocio é aproveitar o tempo de trem. Essas coisas de limpar arquivos, fazer back up, e criar espaços.
Assim que o dia amanhece, se percebe que a realidade já é outra. As poucas árvores que existem estão à beira da estrada. Secas como convém no inverno. São longas extensões de terra arada, algumas já com um verdinho bonito (não sei o que é e nem imagino o que se planta no inverno em regiões tão frias). Tudo muito plano, já não há mais montanhas.
As casas e as pessoas são mais simples. As roupas, ou pouco adereços, as conversas altas, os sorrisos são diferentes. O bilheteiro senta com as pessoas, ri com eles.
As Estações são pequenininhas, e as paradas são mais longas.
Em Biharkeresztes, uma pequena estação, onde quase não tem cidade, ficamos parados um bom tempo. Até que três brutamontes, vestidos de policiais, com fala autoritária começam a ver a documentação de todos.
Claro que eu era o único, talvez, que não tinha documentos da região. Entreguei o passaporte. Irritado ele tirou a capa. Queria arrancar o atestado de vacina, eu disse que não e ele deixou. Passava o meu passaporte em uma máquina portátil e nada acontecia. Várias tentativas, outros guardas e eu só olhando. Saíram do vagão com meu passaporte Fizeram ligações. Um tempo depois voltaram e me devolveram. Ufa! Acho que não sou um fugitivo internacional.
Já assusta a quantidade lixo jogado nos campos. Muita garrafa pet. Casas e cercas bastante prejudicadas. Observo que os guardinhas do trem ainda vestem terno azul, chapéu vermelho e sua sacolinha de couro com equipamentos de trabalhos. Cordinhas passam pelo ombro, pelo bolso e seguram um apito. Acho que agora vai.
Doce ilusão. Quando o trem parte, ciente que não havia comprado nada para comer, pois não havia nada aberto na estação. Atravessei vários vagões e fui até o vagão restaurante. Quando chega o meu café e pão, o trem para e entra outro policial. Mais mal humorado ainda. Me pede o passaporte. (eu havia esquecido no meu lugar) Ele bufa como se eu fosse um rebelde (acho que estava sendo mesmo). Pago meu lanche, levo algumas coisas e vou até o vagão para lhe entregar o passaporte (claro que sem a capa). Ele recolhe todos os passaportes e eu imagino o tempo que vamos ficar parados em Episcopia Bihor.
Na próxima cidade se vê uma imensidão de vagões velhos, em decomposição, enferrujados e quebrados. O mato toma conta dos trilhos.
Agora se viaja em família. Falam, gritam, tentam dar ordens às crianças, arrumam e trocam malas de lugar, fecham cortinas, penduram paletós, mexem tudo de novo. A mulher, com sotaque cantado, cabelos com cor cinza azulado e formato estranhos como se fosse personagem de Almodovar, se encosta e beija o marido com aparente euforia e um grau de exibicionismo para a mãe e o filho que estão sentado em sua frente. O marido com cabelo de corte militar, óculos e bigode fica espremido no canto da cadeira com cara de tonto travesso enquanto ela se espalha e deita a cabeça para traz enquanto ri. O filho tenta conversar com o pai e faz perguntas sem parar. A avó em silencio ao lado do neto. A mãe abre a sacola, pega uma toalha e põe a mesa, garrafas, sanduiches e outras coisinhas. Então todos falam juntos, cruzam conversas. Será que peguei o trem para a Itália?
Uma senhora borda, outra lê. Os homens bebem cerveja. Os jovens assistem filmes em seus equipamentos pessoais.
Com o caminhar se vê menos lixo. Cidades maiores, mas com pouca conservação nas casas. Cruzamento em nível com as estradas e ruas. Sem cancelas, sem sinais.
Voltam as montanhas, voltam as florestas. As árvores secas, mas as pedras cobertas de musgo bem verde e alguns caules cobertos de heras.
É um outro mundo.
O chegar em Cluj Napoca (onde já se viu o nome desse lugar) foi um susto.
As pessoas (multidão) cercando o vagão. Era mala que voava, uma pressão absurda que a gente não conseguia descer.
Quando consegui por o s pés no chão, vesti o paletó, encaixei minha bagagem e desci as escadas. Um corredor úmido, fedido e escuro. Nenhuma placa de indicação em nenhum idioma. Fui para onde achei que devia ir, subi as escadas que achei que devia subir e cheguei na estação.
O único terminal para saque ATM estava fechado.
Ao sair da estação havia uma obra enorme, lá fui eu contornar a obra. Atravessar a rua sem faixa e sem sinal, chegar ao outro lado em uma cada de câmbio (fechada).
Suspira e ora que melhora. Caminhando achei um caixa eletrônico e consegui tirar moeda local.
Atravesso a rua de volta, vou até o ponto de ônibus para sacar um bilhete.
Adivinhou.... estava desligado.
Quebrando as regras da mina viagem eu decidi pegar um taxi.
O motorista queria falar de futebol e saber o que um brasileiro vem fazer em Cruj Napoca. Como eu não sabia responder, fingi que não entendi.
A primeira impressão da cidade foi terrível, me deu saudade da Índia ou de alguns países da África.
É estranho essa forma de entrar pelo interior. Isso é legal de vir de trem. a gente demora para chegar num grande centro
Ao chegar no hotel, fui bem recebido, tudo funciona bem, mas querem saber quando vou embora, porque tem folgas, tem serviços que não funcionam, etc.
Combinei que pago tudo amanhã, peguei um mapa da cidade que parece não oferecer muitos atrativos.
Perguntei de um restaurante de comida típica, dos pontos de interesse e depois fiz a pergunta fatal:
Gostaria de ver uma cerimonia de Natal de uma Igreja Ortodoxa Romena. Silêncio e olhares... e ninguém sabe de nada.

Tudo bem, vou comer e amanhã eu descubro.
Algumas fotos que o nevoeiro me deixou tirar.




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Budapeste - Esse Império Austro-húngaro, quanta historia

Apesar das promessas de mais um dia de completa neblina, as perninhas ficam loucas e os olhos curiosos. 
Só há um único ônibus que desce e sobe de Buda, atravessa a ponte nos leva a Peste. 
Lá em baixo, o melhor é usar o bonde (principalmente o 2) que nos leva a todos os pontos.
Logo cedo a catedral já está aberta. É uma loucura de enorme e bonita. Dedicada Santo Estevão, que depois descobri que foi o primeiro imperador desse império.

 Com minha mania de me perder pelas ruas, descobri uma calçada, em prete a um monumento onde tem uma cerca de arame farpado, com objetos e pedras com nomes de pessoas.
É um rito interessante, aqui, preferem escrever os nomes em pedras e não oferecer flores à memória das pessoas. Porque as flores morrem e as pedras são imortais. Tem muitos objetos, fotos e uma homenagem forte à memória dos que morreram durante a segunda guerra.


Caminhando mais, chego ao Parlamento. Uma obra impressionante e charmosa.
(como algumas pessoas pediram para colocar fotos onde eu apareço, hoje eu resolvi colaborar, embora não goste.
 Depois de muito caminhar, chego ao bairro judeu. 
Em frente à sinagoga, encontro uma húngara que falava espanhol e saímos a caminhar pelo bairro.
Era uma grande conhecedora da história. Me descrevia as fábricas, as organizações sociais, a estrutura toda, enquanto caminhávamos pelo bairro.
Eu não sabia que aqui foi o último gueto. Os Juseus só foram libertados em 18 de janeiro de 45 pelos comunistas. São histórias e números impressionantes.
Contou a história dos grupos e da divisão dos Judeus, e a força que tinham na região.
Me levou em uma sinagoga ortodoxa (octogonal, com dois andares, etc) 
Está abandonada, mas é impressionante e emocionante.
 Depois comprei ingresso e fui conhecer a famosa sinagoga que foi reconstruída. Suas histórias e sua beleza.
Embora no quintal tenha uma das coisas mais impressionantes da historia, principalmente dos Judeus.
 Precisava respirar. Fui caminhando e resolvi entrar no museu. Na verdade eu mais queria me aquecer um pouco. 
Mas foi uma bela surpresa. Precisava de muito mais tempo, mas são salas muito bem organizadas, onde você, ao mudar de sala, muda de época, e as salas são quase um cenário. Muito interessante
 Para felicidade geral da nação, o sol e o céu azul vieram se confraternizar comigo.
Não previsão de tempo que derrube o tanto que eu gosto desse lugar.
 Gostaria de entender mais da história desse império.
tive um amigo que dizia gostar muito da história desse povo e dessa época, mas ele não respondia nada. 
Porque um imperio tão bonito e produtivo durou tão pouco?
Porque sabemos de Napoleões e Luizes e não de Ferdinandos, Artures e outros?
E assim por diante...
Amanhã faço outra madrugada para pegar os trilhos. Vou para terras nunca dantes caminhadas.
Entrarei na Transilvânia, Quem sabe uma ceia com Conde Vlad III
Pode ser que ele nos inspire a tratar os fora da lei, os corruptos e outros sanguessugas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Buda, deixa a peste para amanhã

Depois de uma madrugada, viagem e cansaço, eu chego em Budapest.
Para minha alegria, enorme alegria, o meu hotel fica em em Buda, em frete à igreja, nessa praça que eu tanto gosto.
Eu adoro essa cidade. Não entendo nenhuma palavra, a comunicação é difícil.
O dinheiro é outro. Mas eu gosto muito.
Da última vez, nevava muito e só fiz andar, sem parar, porque é uma cidade imantada para o olhar. 
Hoje, com essa névoa que não termina, essa garoa que não dá sossego, resolvi ficar aqui mesmo. Budava é pequenininha, mas cheia de encantos.. andar e conhecer coisas que não pude ver. 
Comer comida feita no fogo, com tempero. Abaixo os sanduíches e as salsichas com batatas. Eu quero é páprica, vinho e calor da cozinha.
Amanha eu ando do lado de lá do Danúbio, 
acho que vou ficar por aqui. 
OBS: A previsão é de mais dois dias de névoa intensa, umidade 100%- Acho que vou criar peixe em gaiola.





domingo, 20 de dezembro de 2015

Áustria - Graz - Beleza e frio

Continuo em Graz. Podemos dizer que é uma Grazça de cidade.
Depois de uma bem dormida noite, acordo disposto, vejo a previsão do tempo e fico todo animado.
Previsão de 5 graus posso dar folga à bota, a luvas, cachecóis.
A neblina baixa e eu pensando que seria como ontem....
O relógio marcava zero, ninguém pelas ruas.
Caminho até o centro, compro o bilhete para ir até Schloss Eggenberg. que dizem ser o mais bem conservado patrimônio.
O Bonde me deixa longe, caminho naquele frio absurdo, de sapato, meia comum, calça de sarja. Mão no bolso.
Chego cedo e o castelo só abria às 11horas.
Fico caminhando pelo jardim (muito bonito, apesar de inverno) Muitos pavões passeavam junto comigo.


 Às 11horas chega a guia para a visita.
Claro que a visita guiada é em alemão. Tudo bem, vou junto para ver e, quem sabe me aquecer um pouco.
Estive vendo o acervo mais impressionante que se possa imaginar.
Um andar inteiro de obras de arte. Super bem conservados mesmo. É como se fosse um cofre, com portas e guardas (lindas por sinal) atentas a tudo e a todos. 
Salas bem montadas e obras, principalmente sacras dos sec XI a XVI

Depois de tudo isso volto para a cidade. Meu plano era ver o museu de arte moderna.
Essa bolha que dizem ser perfeita e construída com conceitos muito avançados de sustentabilidade.
Entrei e me senti bem. O aquecimento natural é muito confortável. almocei gostoso, mas não tive coragem de ver outra exposição depois de tudo que vi pela manhã 

 Andei mais pela cidade.



Mas o frio de -3 me convenceu que está na hora de abrir a mala, pegar meias de lã. Voltar para a bota e, quem sabe uma calça mais grossinha. Um jeans, talvez.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Graz -

O dia amanheceu mais frio. Nem é tão cedo, mas ainda muito escuro. Caminhei pelas ruas vazias e ainda molhadas até a estação.
Hoje vou atravessar a Áustria. A névoa aumenta o relaxamento, recostado na poltrona, observo as montanhas cobertas com seu cobertor de nuvens.
Hitler não era bobo não. Atrás dessas montanhas estava a sua segunda base. Quase meio dia e a névoa insiste, intensa, imensa, parece que o dia não quer sair da cama. No que posso ver, quase não tem gente, alguns animais, algumas casas e muitas estações.
Entre uma olhada pela janela, suja, como sempre. Uma olhada no computador. Uma leve cochilada. Revejo as fotos dos primeiros dias de viagem. Limpo, recorto, produzo filminhos de cada País.
Como é gostoso arrumar memórias. Poder apagar as manchas, selecionar o que queremos guardar.
Essa magia de ter tempo para olhar suas lembranças, reviver os sentidos e gostar de ter vivido.
O Sol e eu chegamos juntos a Graz.
Pouca gente no trem e agora pouca gente na rua. Tudo fechado. Ah! É Sábado!
Após dar entrada no hotel, comer alguma coisa e tentar descobrir o que tem em Graz. Decidi sair só para conhecer um pouco.
É a segunda maior cidade da Áustria. É a cidade natal de Arnold Schwarzenegger.
Graz tem uma longa tradição como cidade universitária e as suas seis universidades têm, em conjunto, mais de 44 000 alunos. A cidade antiga de Graz é um dos centros cívicos bem preservados da Europa Central. Em 1999, esse centro histórico foi adicionado à lista de Patrimônios Culturais da Humanidade. A cidade foi Capital Europeia da Cultura em 2003.
É uma cidade do só que não.
Explico:
Perto do hotel tem um parque e me indicaram para ir por ele para a cidade.
Pensei que era um parque, só que não
Chego em uma portaria que parece um monumento, só que não
Achei que era a entrada para algum castelo, só que não
Entro é uma rua com prédios históricos muito bem conservados e descubro que a cidade é um patrimônio, espetacular.
Vejo um arco que parece uma galeria, só que não
Era uma estradinha para o bosque, só que não
Era a subida para a torre do relógio, penso, vou caminhar um pouco sossegado pelo bosque, só que não
A subida era forte e tinha muita gente no trajeto. Quando chego na torre, penso que cheguei no topo, só que não
Se avista um terraço mais acima, depois um castelo, depois outra torre, e assim pensava que chegava, só que não
A cidade que parecia vazia, estava toda na montanha. Lá em cima, tinha feirinha, bares modernos, uma festa.
Resolvi descer por outro caminho, achando que era mais curto, só que não
Era uma escadaria lotada de gente.
Achei que era tudo muito popular, só que não
Haviam lojas muito sofisticadas.
Resolvi tomar o caminho de casa, só que não
Errei e cai em ruas super badaladas, com muitos músicos nas ruas, muita festa, muita gargalhada.

Cada vez que achava que ia, quando ia olhar o mapa. Tinha me perdido.
Estou exausto, mas muito feliz.
Acho melhor dormir cedo e amanhã caminhar um pouco mais tranquilo pelas ruas.








sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Áustria - Salzburg

Salzburg é uma surpresa.

Acordo cedo e saio caminhando, encontroem meio a um jardim o Sr. Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, vulgo Paracelso médico, alquimista, físico, astrólogo e ocultista e descobridor do elemento zinco. Lá pelos anos de 1500 e pouco.

Em outra esquina o consultório do Dr. Chirstian Dopller, para felicidade dos cardíacos, hipocondríacos e físicos. Que nasceu e viveu aqui lá pelos idos de 1800 e poucos.

Em frente ao consultório, a outra casa de Mozart. Quando já tinha seus 15 anos. E seu Pai acho que o apartamento anterior era pequeno para os filhos adolescentes dormirem juntos. Uma casa bem maior, com um salão   onde já podia fazer suas composições. (estranho porque ele compunha desde os 5 anos e com 7 já era conhecido já em outros reinos.

Um museu muito interessante, conta a história toda da vida da família em Salzburg. Filho de músico e irmão de uma pianista (amiga e confidente). O Pai era músico capelão e além de ensinar música e ter escrito um manual de educação para violino, pode oferecer oportunidades ao filho.
Depois, se caminha pelas ruas e se conhece muitas igrejas nas quais ele tocou órgão. A catedral é de bambear as pernas.


Vale um pouco de história. Salzburg era uma região que pertencia à Bavária.
Tem vestígios de assentamentos humanos encontrados do período Neolítico.
Aparentemente, os primeiros assentamentos em Salzburgo foram iniciados pelos celtas.
Por volta do ano 15 a.C., os assentamentos isolados foram unidos em uma cidade pelo Império Romano.
No século VII Teodão da Baviera pediu a Ruperto para se tornar bispo, por volta de 700.
Ruperto chamou a cidade de "Salzburgo" e viajou para a evangelizar entre os pagãos. (depois canonizado e chamado de são Ruperto)
Toda essa região foi dominada por bispos por mais de mil anos. Eles tinham o poder total (político, militar e espiritual)

O nome Salzburgo significa "castelo de sal" (em latim: Salisburgium). O nome é derivado das barcaças que transportavam sal no rio Salzach, O Ouro branco que trouxe tanta fortuna para a cidade.


A Fortaleza de Hohensalzburg foi construída em 1077 e expandida durante os séculos seguintes.
Existem muitos outros castelos contruidos por muitos outros bispos. com jardins maravilhosos (imagine na primavera)
Ah! vale uma dica. aqui você pode comprar um cartão de turista que dá direito a entrar em todos os museus, andar em qualquer transporte e visitar os monumentos. Vale muito a pena, pois os ingressos individuais não são baratos.
Uma última curiosidade. Por volta de 1500, as pessoas queria morar do lado do rio onde estava o castelo. Como não havia mais terreno, eles escavavam na pedra e faziam apenas a fachada. Uma piração, imagina a umidade e a falta de sol....